PREFÁCIO

Por vários motivos, sugeri ao Francisco Soriano que houvesse outro apresentador mais competente, neutro e mais prestigiado para seu livro A Grande Partida: Anos de Chumbo. Já que ele continuou perseverante em honrar-me, aí vai esta introdução, como o vejo, sinto e sei.

Como advogado dos dias mais sombrios de suas prisões políticas durante a Ditadura Militar, acabei por tornar-me também testemunha de sua luta, de seu sofrimento e de sua dignidade, dentro das masmorras e dos tribunais da Ditadura que assaltou e assolou o poder político, econômico e social do Brasil, avassalando o povo de 1964 a 1985. Como testemunha de sua conduta, nessas prisões políticas e nas cortes militares, fui levado a tornar-me seu admirador e amigo. Como seu amigo, admirador e advogado, pude avaliar os momentos, longos momentos de profundas dores e angústias às quais foi longamente submetido nas torturas dos porões de concentração de incontáveis milhares de vítimas.

Ao tomar conhecimento dos tormentos pelos quais passou, cheguei a desejar que Soriano tivesse permanecido alienado ou optado por continuar com seus nove irmãos, na província de Teófilo Otoni. Quem sabe teria ele, com menos sacrifícios, aprendido a extrair ou lapidar as pedras preciosas de sua região? Ou - quem sabe? Herdasse a tradição ancestral de lavrar a terra ou tanger o gado, longe das tramas e, tantas vezes, das lamas da política e do poder? Por que não herdou do pai a vocação de "exímio manipulador de remédios" e das fórmulas na cura de moléstias"? Mas, Soriano fora atingido pela incurável "moléstia" do sonho e da descoberta ideológica do socialismo, "utopia" que levaria à solução dos problemas sociais forjados pelas elites, que isolam e desolam a maioria do povo.

O vírus da política e da ideologia socialista pode ter sido a evolução ou mutação daquele herdado de seu pai Avelino, que também "buscava aprimoramento da humanidade por vias convergentes". Ou seria de sua mãe Ruth que, com calma e determinação, lhe ensinava o Be-a-bá e a Justiça entre os homens? Mansamente, ela lhe ensinava os caminhos e corrigia os descaminhos com "sermão que machucava mais que palmatória".

Ambos, sua mãe Ruth (1899-1972) e seu pai, Avelino (1893-1979), morreram enquanto os perseguidores, seqüestradores e torturadores da Ditadura estavam em seu encalço ou o torturavam. Sem poder vê-los, Soriano foi obrigado a chorar, de longe, as saudades das carícias maternas e paternas. "Poucas coisas doem tanto quanto ser privado de contemplar, tocar e beijar, pela última vez, o corpo eternamente adormecido de um ente querido", revela meu amigo.

Dos milhares de perseguidos políticos que defendi, Francisco Soriano é um dos que mais me emocionaram pelo sofrimento e dignidade. É dos que mais me emocionaram ainda por ter conservado seu riso de criança, como se estivesse em folguedos de manhãs de primavera, que sempre continua presenteando aos amigos, família e companheiros.

"Nossos inimigos de classe não alcançam que nascemos para cooperar e não para disputar, e que a busca pela liberdade é algo intrínseco ao ser humano. É exatamente por isso que os venceremos", são fragmentos da carta que Soriano escreveu para sua companheira, Ivone, desde a prisão da ilha das Flores.

A Grande Partida: Anos de Chumbo é um poliedro de figuras e eventos, que nos permite examinar e compreender o sólido multifacético da Ditadura Militar. Também nos permite compreender sua derrota pelos movimentos populares pelos direitos humanos e democracia, que convergiram para a Anistia e as Diretas Já. Cada faceta ou polígono desse poliedro é representada por alguma das figuras mais marcantes e emocionantes do último século. Dentre elas: Prestes, Marighella, JK, Oscar Niemeyer e tantos, que enriquecem o seu livro e o Brasil. Esse poliedro foi também esculpido e testemunhado por tantos outros valorosos participantes, testemunhas e vítimas, muitas delas defendidas por este apresentador.

Ivone, companheira de vida e da luta de Soriano, sabe, compreende e respeita, com gentil compreensão, o amor juvenil de Maria Clara, delicadamente romanceada no texto. Se Ivone escolheu e foi escolhida pelo autor, é porque este é o verdadeiro romance, que continua sendo escrito por eles.

Além das vozes coadjuvantes de textos e depoimentos, Soriano escreveu de forma clara, sem ódio revanchista, que nos emociona com freqüência. Traça um conteúdo conscientizador dos males de uma ditadura, revelando as qualidades pessoais, como a sensibilidade social do autor. O próprio livro foi socializado amplamente com a participação de outras vítimas, em depoimentos. Com isso ampliou-se, vastamente, a visão sobre a ditadura sofrida pelos brasileiros, entre 1964 e 1985, mas que conseguiram expeli-la como repulsiva.

Soriano passa uma lição imperdível, nessa sua A Grande Partida: Anos de Chumbo.

Antonio Modesto da Silveira