COMENTÁRIOS

Texto de Vivaldo Lima de Magalhães, jornalista e contemporâneo do autor
no Colégio Imperial de Teófilo Otoni.

Li A Grande Partida: Anos de Chumbo. Os textos estão muito bem escritos e é notável o equilíbrio que você demonstra  na narrativa dos episódios registrados durante o período em que esteve preso. Quando se é apenas o espectador passivo de acontecimentos tenebrosos, de um tempo de horrores, vividos durante os anos de chumbo, torna-se mais tranqüilo produzir um filme ou escrever um livro. Todavia, quando  seu autor é o protagonista da tragédia (no seu caso), a carga emocional para reconstituir os horrores por ele vividos é muito forte.

O seu livro é mais uma contribuição para revelar a verdadeira história  da participação da juventude idealista brasileira nos aspectos sócio-culturais, político e econômico. Os anos 60 foram fascinantes e projetavam expectativa e confiança nos jovens brasileiros, altamente politizados, que buscavam participação ativa da sociedade brasileira.

Após o golpe, nós, os estudantes da época, nos sentimos mergulhados numa atmosfera cinzenta de decepções, pela não concretização dos nossos ideais. A sociedade mais justa e igualitária, livre da opressão e da injustiça social não passou de um sonho, de uma utopia. A violência e a repressão aos movimentos sindicais e estudantis, praticados durante a ditadura militar implantada no País por vinte longos anos, recrudesceram. Trabalhadores, intelectuais e estudantes foram presos e torturados. Muitos até hoje constam da relação dos desaparecidos políticos. Tudo isso representou um profundo golpe no nosso ânimo e nas nossas pretensões.

A Grande Partida: Anos de Chumbo mostra tudo isso que acabei de citar em poucas palavras, retratando, malgrado os acontecimentos registrados a partir da instalação do AI-5, uma história muito bem vivida, plena de idealismo e de uma certa ingenuidade nas atitudes dos jovens revolucionários no enfrentamento com as forças de repressão, levadas a efeito por todos os militantes de organizações estudantis e operárias, que lutaram em defesa de seus ideais. 

Aos bravos companheiros que partiram para o confronto através da luta armada contra a ditadura, aqui relembrados e exaltados, não há palavras para definir a  coragem e dignidade com que se empenharam para reconstruir um projeto idealizado por antigos companheiros, igualmente massacrados desde os tempos da chamada Era Vargas.   

Um fato entre outros registrados em seu livro  que não posso deixar passar em branco, é  a atitude do marido, cuja esposa sofrera um estupro coletivo por agentes da repressão e, em conseqüência, engravidou, aceitando com resignação a gestação, responsabilizando-se pela criação e educação da criança como se fosse o seu próprio filho, tendo a seu favor as prerrogativas da Lei, em casos como o estupro é digna de todos os encômios pela (re)ação magnânima de um verdadeiro cristão, o que é pouco comum... 


Texto de Maura Pires Ramos, educadora que lutou contra a tirania e sofreu prisões e
torturas, fundadora e diretora da Escola Pequeno Príncipe de
Campina Grande (PB) em setembro de 2006.

Sua luta pela redemocratização do Brasil enche-nos de orgulho e muito nos sensibiliza.

A Grande Partida: Anos de Chumbo , livro que lança hoje em Campina Grande, é um excelente registro  de grande valor histórico.

Parabéns a você pelos seus feitos extraordinários, e a Ivone - sua companheira de todas as horas, pela coragem, pela bravura e pela imensurável generosidade.

Em meu nome e de todos os que lutaram para livrar o nosso país da tirania de um regime autoritário, receba o nosso abraço fraterno e carinhoso.


Texto de Raphael P. Mendes, 15 anos, sobre a leitura do livro do livro A Grande Partida:
Anos de Chumbo,
em março de 2006 .

Um dos melhores livros que já li.

Francisco Soriano soube contar a história nacional e internacional através da sua própria epopéia. Documentos oficiais e sigilosos dão legitimidade à narrativa, numa linguagem fácil e de conteúdo muito amplo. Nela, Soriano cumpriu uma promessa (como ele mesmo declara no início do livro), contou a sua história e de uma boa parte do mundo, falou dos problemas sociais da época e vividos até hoje.

Além de constituir-se em uma obra histórica, é muito cultural e a linguagem de fácil entendimento.

Depois deste livro sobre os anos de chumbo, não é preciso a leitura de nenhum outro, pois a obra em questão é a mais completa em informações.

Parabenizo o Francisco Soriano e a equipe pelo livro A Grande Partida: Anos de Chumbo e tenho o enorme prazer de falar que fui ao lançamento na Livraria do Museu da República, no Rio de Janeiro.


Texto da professora de literatura, Dulcina Regina Ribeiro Molina, em Teófilo Otoni, no dia
7 de junho de 2006, lido em conjunto pelo também professor de literatura, Antônio Lopes
Chácara, por ocasião do lançamento de A Grande Partida: Anos de Chumbo,
na cidade natal do autor.

A respeito de um homem, sua vida e sua obra

De forma didática, Francisco vai-nos apresentando flashes. Fatos inacreditáveis acontecem de maneira insólita – e dão o diferencial à narrativa. Dessa leitura ninguém sai impune. O autor conta uma história não linear: tramas se desenrolam ao longo das lembranças, num vai-e-vem, e vão-se entranhando em compartimentos estanques no leitor, de forma bem desenhada. Cada caso é um caso. Juntos, formam uma vida. Nesse trabalho plástico a que vamos dar o neologismo grafossentimental, o leitor é contaminado a cada passo. Há um senso documental nessa obra sob vários aspectos. Fatos narrados, informações preciosas e raras, imagens antigas. O grande desafio aqui é tornar a história viva, já que a maioria das personagens está morta.

Ao abrir o livro, Soriano ressalta que o batismo de um comando com o nome de um companheiro é uma das maneiras de homenagear os que haviam tombado. Daí, quando em Campina Grande encontra um panfleto do Comando Revolucionário José Milton Barbosa, entende a mensagem e o autor relembra suas últimas palavras: “Nego, vai fundo. Quem sobreviver escreva e divulgue a nossa história, que apesar de trágica é correta e justa”. Estava dada a largada para A Grande Partida: Anos de Chumbo.

Tantas abordagens o filho de senhor Avelino Nunes e dona Ruth Soriano nos traz neste livro: “É bom ser bom”, lição que Francisco aprendeu até a última letra.

É quase difícil imaginar um homem, de estatura acima da média, circunspecto, como o Sr. Avelino, meditando, em busca do aprimoramento da humanidade.

Da. Ruth, pianista, professora, “cujo sermão doía mais que uma palmada”, ensina ao filho o be-a-bá. Aprendendo a ler, o menino inicia, passo a passo, as pegadas musicais da mãe. E vai longe: piano, acordeom, violão.

Com um jeito de criança e carisma especial, o rapaz faz desfilar uma legião de namoradinhas, com histórias diversas.

Onde fica o enxadrista? No Serviço de Planejamento da Petrobrás, Castilho ministra aulas de xadrez aos companheiros, e, o principal – faz analogia entre o jogo e a vida. Soriano aprendeu até tornar-se um ás.

Há uma alteridade que começa em casa, com o pai, a mãe, irmãos, sobrinhos, com cada amigo que defende, com aquela paraibana forte a quem ama de verdade, ou os filhos de sua paixão: uma questão de entranhamento.

Em toda a obra, uma economia na verbalização, dentro de uma seqüência de acontecimentos; uma incrível capacidade de sintetizar grandes emoções, sem despejar sentimentalismos. A meta é chegar ao leitor. Assim, alcança o comum da forma mais simples possível, marca inquestionável de sua obra.

Universitário, Francisco viaja pelos caminhos da subversão, no tempo em que artistas se chamavam undergrounds e marginais. Dessa vez doeu. Ivone, a mulher inteligente, entra em sua vida e se politiza. Mas se aflige. Pais septuagenários sofrem com as conseqüências. Irmãos se atormentam. Por outro lado, a truculência: policial noir de qualidade; elementos (des) humanos que fizeram e fazem ufania do estilo: desencanto, angústia, problemas morais e existenciais. Espécie que aparece como gente de verdade.

Ao narrar os acontecimentos, Soriano não pede que o vejam como pessoa, que passou por grandes sofrimentos físicos e morais, gastando sua juventude contra as desumanidades da ditadura. Jovens políticos, fracos, desbotados, presos em calabouços, ganham vida e figura de gente real, de rosto esperançoso, quando o portão é aberto para a saída de um do grupo.

O que quis dizer o sonho com um gado, andando ou correndo, tangido pelos vaqueiros que cantavam e gritavam, ali na rua Marcelo Guedes? Reses tresloucadas desgarrando-se das demais, fugindo para onde viam um campo aberto; olhos vendados, focinhos furados, sangue que escorria. Barbaridades! Incrível associarmos estas crueldades com as que nossos jovens sofrem. “Não disparem, não disparem, a ideais não se matam”, dizia o tenente Pedro Sarria aos soldados, quando da prisão de Fidel Castro. Evidente aqui a força da Maçonaria. Interessante observar como a obra permite ao leitor se contagiar por imagens que saltam do texto como figuras, num universo em que amor, ódio e rebeldia se misturam para mostrar a delicadeza ou a força da trama. Impossível reprimir-se e não viver os fatos.

A ambivalência de guerreiro e amante é algo que remete ao compromisso do autor com a alma humana: aí reside o sentido para a vida do cidadão.

Soriano nos aponta um caminho – a Maçonaria – único talvez que atua positivamente em quase todos os grandes episódios da História: Conjuração Mineira, Abolição da Escravatura, Independência do Brasil, Proclamação da República. Graças a ela, que tem seu pai como afiliado, sai ileso da ditadura, mesmo trazendo lembranças renegadas de uma tortura tão sem perdão.

A Grande Partida: Anos de Chumbo é quase um retrato na parede. Um autor inquieto que não consegue fazer uma coisa só. Ao longo de uma diversidade de projetos, Francisco pula para os acontecimentos familiares, daí para a história e a política, salta então para o músico, o profissional, o enxadrista. Daí para amores fugazes e, finalmente, o grande Amor.

Arremata, no final, no que seria uma vida, não sem antes projetar uma galeria de jovens lutadores. Esse é o retrato de seus passos, nas várias áreas.

Um aspecto que chama a atenção do leitor é esse fato de o livro agregar diversos elementos, que vão do estudante ao policial, do suspense à espionagem.

Adjetivando: catártico, emocionante, inesquecível.

Resumindo: a vida.

Reforçando: seu recado à exaustão; atingiu o intento.

Realizando: profissionalismo extremado.

Atuando: fidelidade absoluta.

Intrigante, de leitura multifacetada, vários elementos se interligam neste livro, onde o ser humano, além de não valer muito, tem de se virar como pode, para continuar sobrevivendo.

Charles Chaplin nos convida a finalizar este estudo:

“Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, e não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso”.